HASTA CUANDO

Sudamerica Hardcore

por uma questão sócio-ambiental

Estamos em Ipatinga-MG, cidade cálida, industrial e escolhida para fazer parte do rol de centros urbanos brasileiros integrantes da política de substituição de importações, adotada pelo governo nacional no período pós-guerra. Substituímos as importações de alguns bens e maquinários e recebemos toda sorte de indústrias pesadas, com suas prodigiosas formas de poluição. Pagamos toda essa “conta ambiental” com nossos recursos naturais (água, ar, solo e vegetação) e, hoje, nos encontramos no dilema: desenvolver a economia e, ao mesmo tempo, preservar/prolongar os recursos da natureza.

Num contexto global, vivemos na era da mercantilização das coisas. Quase tudo se transforma em mercadoria e a luta pela preservação ambiental toma ares de econegócios. As exaustivas disputas entre as empresas pelas tais ISO e outros atestados de qualidade e respeito ao meio ambiente nos dá uma falsa impressão de que o espírito da modernidade caminha para uma consciência global. Ledo engano! Criticamos o modelo atual de gestão e apropriação do espaço que criam desigualdades, exclusão e destruição ambiental, mas encontramo-nos abertos às alternativas concretas, necessárias e desejáveis.

A sustentabilidade é um conceito muito abrangente e, jamais, deveria limitar-se à relação economia/natureza. Toda essa problemática passa por uma questão social e cultural muito importante: o consumo. O calcanhar de Aquiles desse modelo de consumo é o fato que três-quintos da humanidade encontra-se excluído ou parcialmente excluído dele (o que pode ser aplicado à nossa cidade). Portanto, vislumbra-se uma sociedade sustentável que não se preocupa com o imperativo da dignidade e da felicidade coletiva. Nosso atual sistema sobrevive com medidas compensatórias de governos e empresas e a mercê dos fluxos do mercado. Com isso, a questão ambiental não emerge a outras entidades e classes sociais.

Diante disso, acreditamos em quatro aspectos básicos:

1. O enfretamento das questões ambientais é indissociável da construção da justiça social. Atores coletivos e sociais como ONG’s, sindicatos e movimentos sociais devem participar na construção de idéias sustentáveis e justas.
2. A construção de alternativas práticas de preservação e mitigação do meio ambiente devem ser construídas de forma coletiva e democrática.
3. Uma pequena ação de preservação/mitigação ambiental é apenas auxiliar e local. Os problemas são resolvidos lentamente de dentro pra fora.
4. A sociedade precisa de mudanças profundas de hábitos e práticas para que se construa uma sociedade sustentável. Mas para isso é necessário que assumamos uma postura de educador para aprofundar o debate sobre o tema.

Acreditamos em projetos humanos economicamente viáveis, ecologicamente corretos, socialmente justos e culturalmente aceitos Esse é o sonho daqueles que aspiram a justiça, o respeito à natureza e a igualdade entre os homens e que ainda não foram entorpecidos pelo perfume da indiferença. O mundo é uma possibilidade!

O IMPÉRIO DO CONSUMO
Eduardo Galeano

A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados. Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro trás algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio. Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas?Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada à serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Tradução: Verso Tradutores

Para compreender o conceito lírico do álbum Necrópole, faz-se necessária a imediatização dos problemas urbanos que perpassam a denominação de braços da questão social e tomam proporções muito maiores. E aqui não me refiro apenas às manchas urbanas, visto que mesmo estas ainda entram concomitantemente ao processo de "barganha municipal", sobretudo com os acordos estabelecidos entre municípios vizinhos. Entretanto, discorro sobre as possibilidades humanas encarceradas em metrópoles; desde a liberdade condicional garantida em 1888*, passando pelo êxodo rural ancorando, em fim, na constituição das favelas modernas (já não mais apenas táboas, mas tijolos, e não mais somente de modo horizontal, mas verticalmente, como a ocupação Prestes Maia) observamos os passos do que se refere ao acúmulo capitalista e a deterioração dos direitos sociais adquiridos. Nesta sociedade do espetáculo (bem dito à Schopenhauer)*, onde o leão capital é domado pelo seu adestrador burocrata (pelo conceito Trotskista)* para lançar suas patas famintas sobre as massas, estas tomando o lugar das pipocas lançadas pelo público no grande circo da vida.

Mas, diria a direita, "de onde tiram tanta idéia contrária ao desenvolvimento do capital"? A resposta fica a cargo do estudo da história capitalista, e não somente de sua história como desenvolvimento, mas sim de seus impactos sociais nas conjunturas diversas ao qual se transformou. Tendo em vista a criação das classes, podemos perceber o acirramento da dita 'questão social"* cujas formas de enfrentamento sempre foram a benesse, os métodos caritativos, assistenciais, afinal, proletário em condições extremamente precárias não produziria de maneira adequada! Passando por todas as revoluções capitalistas até deparar-mo-nos com a terceira revolução, a tecnológica, temos a tomada das máquinas em detrimento e sucateamento da esfera empregatícia, já não mais consolidada como órgão progenitor de condições humanas de subsistência. A marcha do capital produz, a cada dia, aliado aos aparelhos ideológicos midiáticos*, a moda das estações, o tênis que o adolescente posteriormente furtará, o carro do ano que levará a criança arrastada, as marcas/logos*, que hoje determinam o caráter humano, suas atitudes perante a sociedade, o sentimento de conforto, de superioridade...O poder de comprar, o magnetismo que impulsiona cada vez mais a sociedade de base ao abismo do consumo exacerbado e inútil, ou mesmo que útil, como em Marx*, "o efeito útil do valor de uso na produção de mercadorias", prevalece como máxima de um bom cidadão. Favorece-se e criam parâmetros de favorecimento para aqueles que, mesmo estando inseridos na classe proletária (entendida neste contexto não como somente à que vende sua força de trabalho, mas a que recebe o mínimo pela venda)*, tenham condições econômicas de manter sua tara consumista impostada pela mídia, que debilmente mantém em seu "cast" diário os espetáculos propagandícios viciosos*. Shopping's centers como abadias do "fashion", mosteiros da sedução monetária, terreiros do deus Mamom bíblico*, onde a cada passo dado novas portas se abrem, novos ambientes se constituem ao seu redor, de beleza evoluída, de carisma superior, escondendo as manchas deixadas pelos faxineiros que não devem aparecer em determinados horários (vide Shopping do Vale), dos vendedores (já não mais vendedores mas "consultores de moda") que ao venderem sua mão-de-obra barata para exploração por intermédio de mais-valia, ainda levantam seus narizes ao ar por sentirem-se em status elevado antagonicamente ao vendedor de um estabelecimento non griffe. É ridículo se analisado enquanto condição, mas é uma verdadeira nova face da tendência do capital, excluir pelo simples fator status.

Nas periferias, do chão de terra batida agora temos o asfalto sujo. Das casas de madeira, não como as belas mansões que se vê no Morumbi ou nos filmes hollywoodianos, temos os barracos de tijolos. Do garoto que sonha em se tornar jogador de futebol teremos um futuro incerto, pautado na violência, afirmado pela ausência de um Estado, consolidado pela instância habitacional que paulatinamente o conduzirá a prática criminal. Mas que Estado foi este citado? Qual Estado? Será que o Estado alguma vez funcionou? Que será o Estado se não instância econômica sob a vigência de manter uma prévio-idealizada* ordem social? Necessitamos realmente de um Estado? Ao que tudo indica, e isto posto historicamente para melhor fundamentar a afirmação, ao Estado sempre foi encarregado o status de mantenedor da burguesia, aos detentores de um poder que não o fictício como o do Estado moderno, mas um real, o financeiro. Com as primeiras explorações do homem pelo homem, nota-se a necessidade de construção de organismos que repreendessem toda e qualquer manifestação contrária ao regime escravocrata imposto: os exércitos. Como para garantir o acúmulo de riquezas era necessário dicotomicamente o acúmulo de escravos, se estabeleceria uma total desordem em caso de revolta escrava, pois os mesmos se mantinham em maior número e ainda em ascendência, e por mais que os senhores de escravos mantivessem seus exércitos, uns poucos homens não dariam conta de garantir a segurança de seus patrões. Tendo esta problemática em mente, os senhores escravocratas resolvem se unir e contribuir anualmente para a manutenção de exércitos mais fortes. Para garantir a correta relação de valores anuais referentes a contribuições (denominadas de impostos) assim como a coleta dos valores e a administração dos exércitos, foram contratados indivíduos que receberiam o nome de funcionários públicos. Para que não houvesse uma revolta escrava, criaram-se através dos funcionários públicos e dos senhores de escravos as leis. Como organismos não isolados de repressão aos que infringissem as leis, foram criados a polícia, as prisões, os torturadores, os advogados, os carcereiros, os juízes, a constituição. Nas palavras de Sérgio Lessa: "Para reprimir a luta dos escravos contra a exploração que sofriam, os senhores de escravos criaram o exército, o funcionalismo público e o Direito. O conjunto formado por estes instrumentos especiais de repressão dos explorados é o Estado." (LESSA, Sérgio. Uma introdução à Filosofia Marxista: György Lukács (mimeo).s/d.). E nas palavras de Lukács, entendendo portanto o Estado como sendo "um comitê executivo da classe dominante para a defesa dos seus interesses históricos contra a revolta dos explorados.".
Sugere-se então a seguinte reflexão: sabemos que inserido na atual conjuntura (capitalista neoliberal) o Estado assume forma de mantenedor, administrador e interventor no que tange ao favorecimento da classe dominante em detrimento de uma classe proletária, a base. Sabemos também, que mesmo contribuindo para uma conjetura social, o Estado se mantém intrinsecamente ligado a ordem capitalista, burguesa, contribuindo para a minorização e desestatização dos serviços públicos e manutenção no tangente ao exército industrial de reserva, ou, massa sobrante. Sabendo desse mínimo, se chega a uma conclusão óbvia: por qual motivo ainda não nos rebelamos contra o Estado? Pelo simples fato de acreditarmos neste Estado! Se acreditarmos em um Estado, damos vazão para sua existência. Perguntaria a um cristão: "por que você crê em Deus?" e ele me responderia: "por quê ele existe!". Mesmo sem provas ao menos empíricas que sejam da existência de um Deus, o cristão, o judeu, o mulçumano, o budista, e tantos outros crêem da mesma forma. Com o Estado não é diferente: sabendo que o mesmo, enquanto instância da ordem burguesa se consolida para a mesma por prover a sustentação básica de sua existência, enquanto instância popular, social, é creditado somente pela ordem que o mesmo supõe guardar. Que será do Estado então senão mais lhe creditarmos a estes afazeres? Que será do Estado então se não mais crermos nele?
por xpaulistinhax

Presente em quase todos os círculos de discussão do cotidiano, das mesas de bares, dos meios acadêmicos, das televisões e jornais, das igrejas e governos que anunciam a apocalíptica ascensão do mais destemido "mal do século", encontra-se o debate em torno da problemática do aquecimento global. As conseqüências são clarividentes: o aumento médio da temperatura global em 0,6º C aproximadamente, durante o século XX; as variações nas coberturas de neve nas montanhas e áreas geladas; aumento do nível global dos mares; o avanço dos desertos; o recrudescimento do El Niño entre outros fenômenos. Historicamente, o aquecimento global não é nenhuma novidade.




Por volta do século XI da era cristã, durante a Idade Média, o planeta também experimentou um relativo aumento das temperaturas médias. Ainda que, os dados anteriores ao ano de 1860 não sejam tão precisos e que a Idade Média restrinja-se apenas ao continente europeu, podemos perceber e relacionar um fato importante: as altas temperaturas médias da era medieval foram acompanhadas, inversamente proporcionais, ao nível de autonomia do pensamento humano. Naquele momento histórico da Europa, as pessoas mal sabiam ler e escrever e todo ensino estava sob o controle da Igreja e voltado para vida religiosa.



Atualmente, iniciamos o século XXI com a consolidação global do sistema capitalista, a interdependência planetária das economias, a massificação da cultura do consumo, o domínio dos monopólios empresariais em detrimento dos governos e suas leis e da desenfreada degradação dos recursos naturais do planeta. Ou seja, a irracionalidade das sociedades humanas está em voga novamente. Essa irracional e predatória forma de produção capitalista degrada de maneira tão rápida que o discurso do "desenvolvimento que atenda as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender as suas próprias necessidades" passa a ser uma tarefa para o presente. As conseqüências que temíamos para nossos filhos já são atuais. Mas como podemos identificar os elementos causadores do aquecimento global para planejarmos ações preventivas? Eis a questão pertinente que martela nossas cabeças.



A maior parte dos cientistas acredita que as causas são humanas. Os poluentes humanos despejados na atmosfera causam o aumento do efeito estufa. A superfície terrestre funciona como espelho (albedo), ou seja, toda radiação recebida do Sol é devolvida, em parte, para a atmosfera. Os gases responsáveis pelo efeito estufa (vapor de água, dióxido de carbono, ozônio, CFC’s) realizam a mesma função, mas no sentido contrário, ou seja, eles absorvem parte da radiação infravermelha, emitida pela superfície terrestre, e devolvem outra grande parte para a mesma. O grande problema é que a superfície terrestre recebe, da reflexão dos gases poluentes, quase o dobro da energia recebida diretamente da radiação solar. Com isso, a superfície fica superaquecida e não há dissipação de calor suficiente para manter a temperatura num bom nível. É claro que a superfície terrestre precisa dessa devolução de energia para manter a vida no planeta, mas, o problema é que os poluentes atmosféricos aumentam esse efeito de radiação, podendo ser os responsáveis pelo aumento da temperatura média da superfície do planeta. Um pequeno grupo de cientistas, conhecidos como "céticos", não descartam as causas da emissão de gases poluentes que provocam o efeito estufa, mas acreditam que "forças naturais" (astronômicas) e ainda desconhecidas pela comunidade científica são muito mais influentes e explicam a atual desordem no clima planetário.



Se analisarmos do ponto de vista da paleoclimatologia (estudo dos climas pretéritos), o planeta já passou por períodos de aquecimentos e resfriamentos extremos, durante a sua existência. A dualidade causal (homem X natureza) encontra-se no cerne da discussão. Como diria o geógrafo Milton Santos, nós estamos num período de aceleração da história, de mudanças rápidas e profundas. De mudanças na forma de pensar, agir e interagir. O avanço das técnicas altera as formas de percepção do mundo e, conseqüentemente, as relações de interdependência homem-meio. Estaremos então entrando num período natural de aquecimento do planeta? Ou as ações humanas têm contribuído para a aceleração das alterações bruscas de temperatura global? Como frear a dissipação da paisagem urbano-industrial e da paisagem agrícola mecanizada em nosso planeta? Podemos recorrer a "hipótese de Gaia" para tentar dar resposta a alguns questionamentos.



A teoria de Gaia sustenta a tese de que o planeta é um ser vivo. Para os defensores dessa teoria, é a vida da Terra que cria as condições para a sua própria sobrevivência, e não o contrário, como as teorias tradicionais sugerem. O cantor Raul Seixas conseguiu ilustrar muito bem esse pensamento num trecho da música "As Aventuras De Raul Seixas na Cidade de Thor". Observe:



"Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não agüenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo
"



O cachorro é o planeta Terra e as pulgas são os seres humanos. Pulgas, assim como os homens, são parasitas externos que se alimentam de outros seres vivos. Como se não bastasse as doenças transmitidas pelas pulgas, a sua presença causa grande incômodo sobre a pele dos animais, podendo, até mesmo, desenvolver alergias. Para além dos efeitos, faz-se interessante observar o efeito que os mesmos causam na humanidade, tanto subjetivamente (o pensamento) quanto em suas consequências (o convívio do homem com o meio socio-ambiental e com sua própria subjetividade). Diante do "livrar das pulgas", que é inevitável, como a pulga, consciente disso, comportar-se-á? O "desespero" diante de um destino absurdo (o fim) promove uma série de consequências: como por exemplo o ativismo. Agir em prol de mudanças, como fazem grupos de defesa ambiental (greenpace, earthfirst e demais subculturas que não são, necessariamente, ONG's). Isso soma-se à consciência ambiental de diversas camadas sociais. Portanto, é comum ver pessoas recriminando o ato de, por exemplo, jogar lixo no chão; Por outro lado, diante de um fim iminente (da Terra, com ou sem esse ativismo, que nada mais faz que retardar o processo naturalmente inevitável do "saculejar-se" dos homens), o ativismo, em grande ou pequena escala, em direção "n" ou "d", não provoca nenhum efeito no resultado final do processo de "saculejo", portanto, não salvará as vidas das "pulgas" que estão se mobilizando para tal (uma vez que o ativismo não é por "amor à Terra", mas para não ser "saculejado" por ela). Essa ação desesperadora se envereda pelo desespero do "fim do mundo" (entenda-se como um fim da espécie humana), perdendo todo o sentido de ser. Contudo há, ainda, a vida. E só pode se desesperar alguém que, além de vivo, preza pela vida. Dessa forma, aquele que, vivo, desespera-se ou resigna-se diante de um findar de sua existência (e espécie) não é extrínseco à existência e pode, indiferente às probabilidades de conquista, agir em função de melhorias (se não do meio socio-ecológico em que vive, se sua própria convivência com seu Eu), e isto dá-se, inevitavelmente, pelo agir (já que o conformar-se, resignado, implicaria em um tédio suicida).




Há ainda os mais otimistas que afirmam que o problema do aquecimento global pode, por outro lado, nos oferecer uma grande oportunidade de resolver o problema da guerra e da pobreza. A natureza é um ser vivo, ela é sistêmica, cíclica e imprevisível. Suas reações sintomáticas não são isoladas. Não há possibilidade de resolução do problema sem uma ação global conjunta. Para os otimistas, somente as ações individuais dessa grande massa humana que formam a "teia da vida" somadas a políticas de planejamento de alcance mundial atenuarão o problema (com a formação de vários comitês e conselhos locais). A velha "boa-nova" do cooperativismo e do pacifismo ressurgir-se-á de uma crise. Os otimistas acreditam que os sistemas de sáude, políticas de educação e habitação, atividades econômicas, artes e entretenimento deverão assumir um caráter sustentável. O cooperativismo internacional democratizará esses recursos? Veremos!




por Marco Tráfico e Ogäit Borderline


"Herdamos do império português a estrutura latifundiária no campo brasileiro e dela não nos livramos. Percorremos uma história de capitanias hereditárias, sesmarias, grandes fazendas de monocultura de exportação, modernas empresas agropecuárias e entramos no século XXI completando cinco séculos de latifúndio. Mesmo que parcialmente modernizado, o latifúndio brasileiro continua sendo a grande causa estrutural da maioria dos nossos problemas sociais. É uma das causas históricas da brutal concentração de renda, da urbanização caótica e da fome que hoje estão destruindo o tecido social da nação brasileira. O latifúndio - mesmo que comprove produtividade econômica - é socialmente improdutivo. Não produz distribuição de renda: concentra. Não produz comida para a mesa do povo brasileiro: o que se acha é monocultura de exportação".
www.pstu.org.br

Vozes da Discórdia Distro.

Estamos distribuindo o VCD DUPLO "MUITO ALÉM DO CIDADÃO KANE", que conta a saga de dominação da Rede GLOBO de televisão e seu chefão Roberto Marinho. O vídeo foi produzido por Simon Hartog produzido em 1993 pelo canal 4 da BBC de Londres. O documentário discute o poder da rede Globo e teve sua exibição proibida no Brasil. Você vai ficar indignado com entrevistas de pessoas que trabalharam na Rede GLOBO, o processo de manipulação das Eleições de 1989 e outras atrocidades.

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mais sobre o documentário:

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/08/260569.shtml